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Loures – Em Bucelas o Último Tanoeiro em Ruínas

Março 29th, 2016 | by António Tavares

Bucelas/Loures, paredes meias com o Museu da Vinha e do Vinho estão as instalações em ruínas do último tanoeiro a sul do Mondego. Tanoeiro Bucelas_650

“Zé Espiga”, de seu nome José Quintão, é o último tanoeiro a Sul do Mondego. Esteve na Assembleia Municipal de Loures de 2 de Março passado a apresentar o seu caso e, isso motivou a LouresTV a fazer a reportagem cujo vídeo apresentamos em anexo. Refira-se que durante a nossa presença foram muitas as pessoas que de visita ao Museu do Vinho, entraram pelas instalações de José Quintão e ficaram assombradas com o estado deplorável das instalações onde o tanoeiro “Zé Espiga” desenvolve a sua atividade. Ruinas1_650

Tanoeiro de Bucelas por um fio

Vivemos decididamente num mundo tecnológico-dependente. Onde todo o esforço financeiro na educação global se direcciona na instrução, sempre na rota das denominadas novas tecnologias. E em tudo, mesmo nos jogos ou simples brincadeiras das crianças, como se não houvesse nada mais que a máquina, que as caixinhas cheias de micro-chips feitas de plástico – as tais em pvc, num contexto mais malicioso das designações, onde o hardware também é rei.

As novas tecnologias parecem magia: corremos em procurá-las adaptar aos ofícios e artes antigas como se apenas fosse necessário clicar num botão, para que tudo aconteça, seja uma pintura sobre uma tela, uma terrina de cristal, uma peça de cerâmica ou porventura uma pipa para envelhecer vinhos e águas ardentes.

É como se tivéssemos deixado de ter história, de ter uma agricultura, uma pesca ou uma indústria onde a manufactura tivesse deixado de ter relevância, num escasso lapso de tempo. Abandonámos as tradições, as emoções e a coerência da vida. Ruinas2_650

Consumimos horas e biliões numa corrida contra a própria existência. Olhamos de lado o património, enterramos o passado institucionalizando os mais antigos, mesmo os que persistem viver, ocuparem-se, como se bastasse à dignidade pagarmos apenas o Estado social.

José Carlos Quintão, o tanoeiro de Bucelas é uma dessas figuras cada vez mais raras que quer continuar a ser útil e a dar largas à sua sabedoria: simplesmente focado na construção dos barris e numa panóplia de peças que só um tanoeiro sabe fazer. Com mais de 40 anos de trabalho, já está menos importado com a correria às tecnologias. Elas não lhe constroem os barris e já tem as máquinas que cheguem ao ofício.Ruinas3_650

O Zé Espiga – como é reconhecido -, conhece todos os truques e até já deu aulas do ofício, mesmo com a sua maior dificuldade em articular as palavras certas, politicamente correctas, que se aprende na lengalenga da vida moderna e entre discursos de circunstância da nossa sociedade presunçosa, emproada, gananciosa, mas pirosa e insatisfeita que, raramente encontra espaço para além deste condado, em que quase ninguém acredita.

No centro da vila de Bucelas, paredes meias com o Museu do Vinho e da Vinha, há um Zé que apenas sonha encontrar quem o ajude a continuar a arte tanoeira, a construir barris e outros artefactos realizados a partir do design da pipa, como peças de mobiliário já tão disseminado. Ali mesmo em frente à Enoteca das tão emblemáticas Caves Velhas, encontramos um tanoeiro que vive debaixo de um telhado antigo, desventrado, que ruiu parcialmente e lhe fez cair meia casa sobre a oficina. Ruinas4_650

José Quintão só quer um espaço para continuar a dar largas à sua arte e ajustado às suas limitações económicas. Mas o tanoeiro de Bucelas reza para que haja alguém mais endinheirado ou uma Câmara Municipal sensível – a de Loures, em concreto – que compre o espaço ao seu senhorio e o reabilite, lhe dê a vida e o brilho que já teve.

O Zé (Espiga) imagina-se parte do círculo antigo e museológico do vinho e da vinha, indubitavelmente a atração maior de Bucelas. Prefigura-se a moldar carvalho, castanho, mogno, acácio ou eucalipto, em barris ou em peças delas derivadas, ícones do culto tradicional de um País vinhateiro que se encaixa entre os quinze maiores. – José Maria Pignatelli

 

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